domingo, 22 de Novembro de 2009

Dave Matthews Band on Saturday Night Live (21-11-2009)

A Dave Matthews Band actuou ontem no Saturday Night Live e tocaram a Shake me Like a Monkey e a You and Me, o mais recente single do Big Whisky and The Groogrux King.

Aqui fica também Dave Matthews a fazer de Ozzy Osbourne :)

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The Dave Matthews Band performed yesterday on Saturday Night Live and played Shake me Like a Monkey and their latest single from Big Whisky and The Groogux King: You and Me.

And you can also see Dave Matthews as Ozzy Osbourne.



sábado, 21 de Novembro de 2009

Europe 2009 - 3 CDs & 1 DVD (II)



















Já se encontra em pre-order no Warehouse o box set que contém o concerto que a banda deu em 2009 em Lucca, Itália, juntamente com o DVD do concerto no o2 Academy, Brixton, Londres. Esta box-set contém também um photo book que retrata a tour da Dave Matthews Band no velho continente.

Entre várias opções, existe também a hipótese de compra de t-shirts com o logo do espectáculo de Lucca:














Ou então, a melhor hipótese para um presente de Natal, o conjunto Super Deluxe, com os CD's do concerto de Lucca, o DVD de Brixton, o calendário de DMB de 2010 e a Super Deluxe Box do Big Whisky and The Groogrux King.




















E aproveitamos para congratular a comunidade Italiana Con-Fusion por esta edição.
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You can now pre-order on Warehouse the box set that contains 3 CD's from the Lucca, Italy show, a DVD from the O2 Academy, Brixton, London show and a photo book from the DMB European Tour 2009.

You can also buy the t-shirts from the European Tour with the Lucca event logo.

Or, for your Christmas gift, you can choose to pre-order a Super Deluxe Box that contains not only the CD's from the Lucca show or the DVD from Brixton, but also a DMB 2010 calendar and the Super Deluxe Edition from Big Whiskey and the Groogrux King.

And congratulations to the Italian Community Con-Fusion for this release.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Europe 2009 - 3 CDs & 1 DVD

O Box Set que marca a passagem da banda pelo velho continente em 2009 está em pré-venda no Amazon. Será composto por três CD's e um DVD que será, muito provavelmente, do concerto de Brixton Academy, em Londres.

Se os três CD's são de um concerto específico ou uma espécie de best of da tour europeia, não sabemos. Ainda não existe um anúncio oficial por parte da Warehouse, por isso, aguardemos por mais notícias.

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The Box Set that shows the band's presence in the old continent in 2009 is now on pre-sale on Amazon. It will have three CD's and one DVD that will be, rumour has it, from the Brixton Academy concert.

If these three CD's are from one single show or are some sort of best of of the european tour, we don't know. There's still no official announcement from Warehouse so all we can do is wait for more news.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Vota em Dave Matthews Band

Dave Matthews Band está nomeada para a melhor banda Rock para o People's Choice Awards 2010, juntamente com All-American Rejects, Daughtry, The Fray, Green Day, Kings of Leon, Linkin Park, Muse, Nickelback, Paramore, Pearl Jam, U2. É verdade que os nomeados são todos eles muito diferentes e muito embora não se perceba muito bem o que Dave Matthews Band está a fazer na mesma categoria que Linkin Park, podem votar na banda através deste Site.

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The Dave Matthews Band is nominated for Favorite Rock Band in the People's Choice Awards 2010, along with All-American Rejects, Daughtry, The Fray, Green Day, Kings of Leon, Linkin Park, Muse, Nickelback, Paramore, Pearl Jam, U2. Although we don't get why Dave Matthews Band in nominated along with Linkin Park, for example, you can always vote for DMB trough this link.

Dave Matthews Band on Ellen (15-09-2009)

Dave Matthews Band foram tocar ao The Ellen Degeneres Show e aqui têm o resultado final:

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The Dave Matthews Band played on The Ellen Degeneres Show, and here's its result:

Why I Am e You and Me



Crash Into Me



Shake Me Like a Monkey

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

European Spring Tour 2010

A Warehouse vai começar a Pre-Sale dos bilhetes para a European Spring Tour a 20 de Outubro. A venda ao público iniciar-se-á a 23 de Outubro.

Contudo, a zona de França, Espanha e Portugal ainda não têm datas marcadas.


Isto não significa que venham a ter, mas ainda há esperança. Quando e se houver mais notícias, depois trasmiti-las-emos.

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Warehouse will make the Pre-Sale for the European Spring Tour 2010 tickets on October the 20th. The public sale begins on October the 23rd.


As you can see in the image above, France, Spain and Portugal don't have any dates scheduled yet. That doesn't mean that they will, but one can hope... :)

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Datas da European Spring Tour 2010

Até agora, as datas anunciadas são:

Sat, Feb 13 - Stockholm, Sweden Arenan
Sun, Feb 14 - Copenhagen, Denmark Falconer Theatre
Tue, Feb 16 - Hamburg, Germany Congress Center Hamburg Hall 1
Wed, Feb 17 - Berlin, Germany Tempodrom
Fri, Feb 19 - Vienna, Austria Gasometer
Sat, Feb 20 - Munich, Germany Zenith
Mon, Feb 22 - Milan, Italy Palasharp
Tue, Feb 23 - Rome, Italy Palalottomatica
Thu, Feb 25 - Padova, Italy Palasport San Lazarro
Sun, Feb 28 - Cologne, Germany Palladium
Mon, Mar 1 - Antwerp, Belgium Lotto Arena
Wed, Mar 3 - Amsterdam, Netherlands Heineken Music Hall
Thu, Mar 4 - Frankfurt, Germany Jahrhunderthalle
Sat, Mar 6 - London, England O2 Arena
Sun, Mar 7 - Manchester, England Apollo Theatre
Tue, Mar 9 - Dublin, Ireland O2 Arena
Thu, Mar 11 - Glasgow, Scotland Scottish Exhibition and Conference Centre
Fri, Mar 12 - Birmingham, England O2 Academy - Birmingham

Fonte: Warehouse.

domingo, 4 de Outubro de 2009

Dave Matthews Band volta à Europa em 2010

Sim, é quase-oficial. Dave Matthews Band estará de volta ao velho continente na Spring Tour. Dave confirmou à revista alemã Guitar & Bass que a Alemanha contará com dois espectáculos da banda.

Resta-nos esperar que os espectáculos sejam anunciados pelo site oficial da banda e que se confirme o que Dave nos confidenciou no Meet & Greet, ou seja, que regressem novamente a terras lusas.

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Yes, it's almost official. The Dave Matthews Band will return to the old continent on its Spring Tour. Dave confirmed to the german magazine Guitar & Bass that they are planning for two shows in Germany.

For the portuguese fans, we only have to wait for the announcement on the band's official website and hope for a confirmation of what Dave told us at the Meet & Greet, that they would be back again to Portugal.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

"My favourite kind of music is good music"

Entrevista a Dave Matthews no Tavis Smiley Late Night on PBS, no passado dia 14-09-2009. É uma entrevista de 23 minutos onde se fala, incontornavelmente, da morte de LeRoi Moore, da própria personalidade de Dave Matthews e do mais recente álbum Big Whiskey and the Groogrux King.

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Dave Matthews’ interview on Tavis Smiley Late Night on PBS recorded on the 2009-09-14. It is a 23 minute interview where LeRoi Moore’s death is inevitably mentioned, as well as Dave Matthews’ personality and the band’s latest album Big Whiskey and the Groogrux King.

domingo, 13 de Setembro de 2009

Discografia Comentada - Everyday (parte 5)

Passaram-se quase três anos desde o lançamento do terceiro album da Dave Matthews Band - “Before These Crowded Streets”. Durante este friso cronológico foram editados dois discos ao vivo: “Listener Supported” com a banda completa e “Live At Luther College” acústico com a participação de Dave Matthews e Tim Reynolds. Após três álbuns de estúdio bem sucedidos, a Dave Matthews Band enfrentava uma época muito penosa... os fãs por seu lado estavam esfomeados por novo material de estúdio:

The vibe was not very good. Dave had to dig into his soul... and what was coming out was pretty interesting"
»Steve Lillywhite

Descontentes com as novas canções produzidas por Steve Lillywhite, a banda arquivou este material em prol de um novo projecto com a colaboração de Glen Ballard. O resultado foi “Everyday” - um conjunto de doze canções escritas por Matthews e Ballard em dez dias.

"In the end, the way to get out of that was to move away from the whole thing... including Lillywhite (…) Apart from moving on, after six mouths I was open to everything"
»Stefan Lessard
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EVERYDAY



Editado: 27 Fevereiro 2001
Tempo total: 51:00
Editora: RCA
Produtor: Glen Ballard

Faixas:
1. "I Did It" – 3:36
2. "When The World Ends" – 3:32
3. "The Space Between" – 4:03
4. "Dreams Of Our Fathers " – 4:41
5. "So Right" – 4:41
6. "If I Had It All" – 4:03
7. "What You Are" – 4:33
8. "Angel" – 3:58
9. "Fool To Think" – 4:14
10. "Sleep To Dream Her" – 4:25
11. "Mother Father" – 4:24
12. "Everyday" – 4:43

Gravado em: Conway Studios, Los Angeles, CA (Novembro 2000)

Basta ouvirmos os primeiros cinco segundos da primeira faixa para percebermos que estamos perante um novo mundo – estamos perante um corte radical com o passado. Foi com esta sonoridade que Dave Matthews Band inaugurou o novo milénio que coincidiu com o inicio de uma longa época de self-discovery e de experiências musicais que só terminou (segundo Matthews) em 2009 com o lançamento de “Big Whisky And The Groogrux King”. Porque é que este disco é tão diferente dos primeiros três? A lista de respostas possíveis é enorme: desde o artwork do disco; passando pelo renovado elenco de produção e edição; sem esquecer as letras e o próprio formato das canções… tudo cheira a novo naquele que é visto por alguns fãs como o trabalho que fugiu à “evolução natural” da banda. Durante esta análise tentaremos analisar todas estas questões bem como problematizar uma série de conceitos adoptados por alguns críticos e fãs para catalogar este disco.

Ao eclodir das primeiras notas de “I Did it” reconhecemos uma nova paisagem sonora: agora a guitarra eléctrica é a grande protagonista e catalisadora harmónica da escrita da banda. Todos sabemos que nos três primeiros trabalhos Matthews fez-se acompanhar da guitarra acústica, recorrendo ao seu amigo Tim Reynolds para desenvolver alguns preenchimentos harmónicos na guitarra eléctrica. Ao contrário do que é referido por muitos fãs, o uso da guitarra eléctrica não foi uma estreia de “Everyday”, já que em outras faixas como “Drive In Drive Out” ou “Cry Freedom” encontramos um acompanhamento harmónico destacado por este instrumento. A grande diferença é que na ausência de Tim Reynolds, os riffs de guitarra eléctrica (desta vez tocados por Matthews) apresentam-se muito mais agressivos que os de outros trabalhos, através do uso de efeitos de pedaleira e distorção.

Go door to door
Spread the love you got
You got the love
You get what you want
Does it matter where you get it from?
I for one
Don’t turn my cheek for anyone
Unturn your cheek to give your love
Love to grow


Em termos temáticos encontramos uma série de letras triviais que contrastam com os simbolismos presentes nos trabalhos anteriores. A fórmula constituída por um refrão repetitivo com a frase “I Did It” não é porém um marco novo, basta voltarmos a “Drive In Drive Out” - a faixa cuja letra é a mais fraca de “Crash”. Estes refrões repetitivos atingem o seu paradigma no álbum “Stand Up” (A desenvolver na parte 7).

Em termos musicais nota-se a ausência do violino nesta faixa, o que não quer dizer que Tinsley esteja ausente, bem pelo contrário: o violinista deixa temporariamente o seu instrumento para cantar uma pequena secção do verso em rap. Este novo elemento apanhou de surpresa os fãs da banda, porém nem tudo nesta nova sonoridade é diferente: o riff inicial prolonga-se até ao verso, servindo de acompanhamento base para letra cantada por Dave. Esta é a prova de que apesar de soar diferente, algumas das características basilares de DMB continuam a segurar os pilares estruturais de algumas faixas deste disco.

Quando foi lançado como primeiro single, “I Did It” obteve uma recepção negativa, já que a grande maioria dos fãs não reconheceu a banda no seu novo fato sonoro. Alguns apelidaram esta nova sonoridade de “comercial”… conceito muito problemático e que merece ser discutido. A priori toda a música lançada através de uma editora é comercial, seja ela de que estilo ou género for. A indústria musical – composta por uma série de editoras (que são empresas) – necessita de lucros. Logo não podemos esquecer que toda a música editada tem o objectivo de ser comercial, inclusive a música erudita. Há quem defenda que música comercial contém determinadas características que prevê elevados números de vendas, associando este estilo a nomes como Britney Spears, Madonna ou Backstreet Boys. Se considerarmos que a música de Dave Matthews não obedece a estes parâmetros, percebemos o quão falível é esta observação ao percepcionarmos que o álbum “Crash” de DMB vendeu mais cópias que “American Life” de Madonna. Em suma, estamos a lidar com os valores e gostos pessoais que são muito diferentes de sujeito para sujeito… o conceito de “comercial” ou “mais comercial” apresenta-se assim erógeno, já que no limite toda a música editada é comercial.

Avancemos para o segundo single deste disco: "The Space Between". A balada por excelência deste trabalho apresenta-se com um formato familiar: um verso com características obscuras que contrasta momentaneamente com um refrão luminoso e cantabile. Nesta faixa apercebemo-nos ainda com mais facilidade de que estamos perante um trabalho de produção muito diferente da exercida nos primeiros registos da banda, através de uma orquestração e produção de Glen Ballard que inclui um elevado número de preenchimentos e efeitos de sintetizador. Em algumas faixas estes preenchimentos ocupam um espaço tão dominante que neutralizam o papel de Leroi e Tinsley, músicos que vêm drasticamente reduzidas as suas aparições neste disco. Leroi ainda tem hipótese de tocar algumas notas no final desta faixa, ao contrário de Tinsley cujo violino ainda mal se ouviu. Em termos temáticos esta faixa não é tão banal quanto parece, sendo provavelmente uma das letras mais interessantes deste conjunto de canções:

We're strange allies
With warring hearts
What a wild-eyed beast you be
The space between, the wicked lies we tell
And hope to keep us safe from the pain


Mais uma vez Matthews lida com a desconfiança e desconstrói uma visão harmoniosa e funcional do amor, apresentando de forma simbólica alguns dos problemas existentes numa relação amorosa. Carter passa despercebido nesta faixa, também porque a mesma não deixa muito espaço para as acrobacias rítmicas com que o baterista nos habitou em registos anteriores. Na esmagadora maioria das faixas Carter limita-se a manter o ritmo, provando que o baterista foi um dos maiores prejudicados desta nova roupagem musical.

Outra balada deste disco é “Angel”, uma das faixas mais estranhas que contrasta com ID “natural” da banda. Apesar de se iniciar com uma interessante intervenção de guitarra eléctrica, esta transforma-se naquele que é frequentemente tido como um dos momentos mais infelizes da banda. Porque é que muitos fãs não gostam desta faixa? Antes de mais não encontramos quase nenhuma intervenção do violino enquanto o saxofone surge despercebido. Por outro lado a letra é muito fraca e trivial, apresentando-se muito longe da complexidade lírica e holística presente nos trabalhos anteriores. Há que salientar que a linha melódica vocal do refrão não é de todo característica de Dave Matthews:

Why do I beg like a child for your candy?
Why do I come after you like I do, I love you?
Wherever you are
I swear
You'll be my angel
You


Já discutimos anteriormente (nomeadamente durante a análise de “Crash Into me”) o recorrente jogo de palavras característico da escrita de Matthews, principalmente nas múltiplas associações inerentes ao verbo “to come” que parece estar (mais uma vez) associado ao momento hegemónico de um acto sexual sob a forma de orgasmo. A referência ao “your candy” pode também sugerir uma imagem intrinsecamente sexual.

Segundo os autores (Matthews e Ballard), estas doze faixas foram escritas no espaço de dez dias. Este limitado tempo de composição entra em dicotomia com o despendido para grande maioria das faixas anteriormente editadas pela banda. Como vimos anteriormente, essas faixas já existiam anos antes de se iniciar o processo de gravação, factor que contribuiu para a maturação do material musical antes deste ser fixado em cd. Ballard é conhecido pelo seu imediatismo animal, capaz de produzir uma série de hits em tempo recorde. Uma das suas mais conhecidas produções foi “Jagged Little Pill” de Alanis Morissette, disco que incluí o sucesso “Ironic” cuja letra e música foi escrita em menos de uma hora. Se tivermos em conta que um processo semelhante foi accionado para a produção deste “Everyday”, temos de admitir que algumas das faixas estão realmente interessantes, como os casos de “So Right” ou “What You Are”.

Apesar da faixa “So Right” se iniciar com um riff pouco característico da banda, podemos constatar que na sua globalidade esta é uma das canções mais equilibradas que encontramos neste disco. É interessante salientar a recuperação do som do saxofone baixo, que se apresenta como parte integrante da textura musical deste riff. O que torna esta faixa "mais característica" da banda é facto de encontrarmos pequenos apontamentos de todos elementos do grupo, mesmo que estes sirvam apenas de fundo enquanto Matthews canta. É também nesta faixa que encontramos um dos únicos solos de saxofone presentes neste disco, apesar deste ser muito pequeno (dura apenas 15 segundos).

A notável diminuição de secções instrumentais neste trabalho acontece devido ao facto da banda não ter participado no processo de composição. Segundo Boyd Tinsley as faixas foram apresentadas aos restantes quatro elementos e estes limitaram-se a tocar e preencher a textura musical com algumas interjeições. “Dream Of Our Fathers” faz parte do grupo de faixas cuja falta de espaço para secções instrumentais é mais notória. Desde o inicio até praticamente ao fim não encontramos um único segundo de música instrumental, já que a voz de Dave nunca está ausente da textura musical. Esta faixa entra em dicotomia quase geral com tudo o que a banda fez, onde se nota a ausência total do saxofone e violino, substituídos por efeitos de produção e sintetizador. Estes factores combinados são mais que suficientes para justificar o facto de esta música nunca ter sido tocada ao vivo, fazendo desta uma autêntica raridade que nunca conheceu uma versão ao vivo.

Uma das temáticas dominantes na cultura pop do final do século XX/inícios do século XXI prende-se ao famoso bug do ano 2000 e à alusão ao fim do mundo, muitas vezes elucidada em letras de canções (“Until the End Of The World” e “Last Night On Earth” de U2 ou “Will 2 k” de Will Smith ), filmes (“Armaggeddon”, “Independence Day”, “Terminator: Judgement Day”) e até mesmo em séries televisivas como exemplo de “O fim do mundo”, uma produção da Globo Brasil. Dave Matthews Band não ficou indiferente a esta questão ao editar “When The World Ends”:

Oh, when the world ends
We'll be burning one
When the world ends
We'll be sweet makin love
Oh, you know when the world ends
I'm going to take you aside and say
Lets watch it fade away, fade away
And the world's done
Ours just begun
It's done
Ours just begun


Dave apresenta uma versão sexualmente explícita do fim do mundo ao exercer uma comparação entre a força de um acto sexual e a destruição furiosa dos prédios. O erotismo desta faixa é diferente do presente em “Crash Into Me”: enquanto que em “Crash” a letra não é tão explicita, surgindo disfarçada pelo tom doce e intimista da voz de Matthews; em “When The World Ends” a explosão sexual é notória através de descrições que sugerem imagens sexuais, cantadas de forma bem mais agressiva e maliciosa. Em termos musicais esta é a única faixa onde Tinsley tem algum destaque através do seu papel dominante no riff principal da música… apesar de este estar enredado de efeitos de produção. No fim desta canção encontramos uma situação interessante: a música é abruptamente interrompida a meio de uma frase… um corte sonoro que podemos interpretar como a representação do fim do mundo.

Em seguida gostava de tecer algumas considerações no que diz respeito ao artwork deste trabalho. Antes de mais há que salientar que este foi o primeiro disco cuja capa inclui uma foto da banda, findando o costume de adicionar uma imagem cujo conteúdo se identifique directa ou indirectamente com o título do disco. Numa época em que a imagem (aparência) ganha cada vez mais importância e que o consumidor sente necessidade associar uma cara à música, a máquina de produção garantiu que os novos fãs atraídos por esta nova sonoridade conhecessem os artistas. Esta visão ganha ainda mais força devido à inclusão no booklet de uma foto para cada membro do grupo, devidamente identificada com o nome do músico e instrumento que toca. Ainda no artwork há que salientar a notória ausência das letras, facto que se repete apenas em “Stand Up” (curiosamente estes são os dois álbuns cujas letras são frequentemente tidas como as mais fracas, fazendo com que a ausência das letras possa ou não constituir um acaso).

Fool To Think” é outro exemplo de uma letra fraca que gira em torno de uma temática amorosa trivial que inclui um refrão repetitivo (tal como vimos anteriormente em “I did it”). Em termos musicais encontramos uma interessante interpretação de Carter num raro momento de inspiração rítmica através de contratempos numa base rítmica ternária simples (pouco comum no catálogo da banda), naquele que talvez é dos únicos momentos em que reconhecemos o baterista deste disco.

Tal como a letra de “Fool To think”, a grande maioria das temáticas de “Everyday” entram em contradição directa com aquela que é vista por muitos fãs como a “santíssima trindade” de DMB, constituída pelos três primeiros discos. Assistimos desde modo ao camuflar de uma crise existencial e artística que a banda atravessava na época cujo coração temático se encontrava nas arquivadas sessões com o produtor Lillywhite. Apesar de notarmos este camuflar na grande maioria das faixas do disco “Everyday”, ao percepcionamos as letras de “What you Are” e “If I Had it All” podemos constatar alguns resíduos da eminente crise:

Remembering times much younger than me now
When my breath was light
When the world raised me up kind
And here mother comforts child
Every moment was waking up
But now I’ve grown tired... out
If I had it all, you know
I’d fuck it up


If I Had It All” apresenta um sujeito poético nostálgico com o passado e insatisfeito com o presente. Esta temática que já estava presente em “The Dreaming Tree”, apresenta-se aqui com uma linguagem directa e bem menos simbólica que lírica presente na faixa que nomeou o disco “Before These Crowded Streets”. Em termos musicais não existem novos elementos a adicionar a não ser o facto de encontrarmos acompanhamento dominante de sintetizador enquanto Leroi e Tinsley passam despercebidos no meio da textura musical.

A faixa seguinte “What You Are” constitui um dos momentos mais coesos deste disco, através de uma sonoridade que se apresenta com características que conhecemos de outros trabalhos: Em primeiro lugar há que salientar que Leroi e Tinsley conseguem algum destaque através de alguns apontamentos de fundo enquanto Dave canta a letra. Depois reencontramos uma sugestão a ambientes orientais (principalmente na introdução). No contexto de concertos ao vivo esta música ganhou uma maior proporção, fazendo desta uma das únicas faixas deste disco cuja interpretação ao vivo foi bem recebida pelos fãs (situação que se repete apenas com a faixa que dá nome ao disco - “Everyday”). A forma como Matthews canta entra em consonância com a vocalidade anteriormente exercida em “The Last Stop” (mais comedida porém), projectando musicalmente a inquietude presente na letra:

I walk into this room
Oh, all eyes on me now
But I do not know the people inside
They look straight through me, these eyes
Seeking more wisdom than I have to give away
Realize, realize what you are...


Esta faixa pode sugerir o desconforto de Matthews perante a fama, razão pela qual o artista não consegue muitos momentos discretos. Por outro lado podemos interpretar as frases “What you've become, Just as I have, Are you and I so unalike?” como uma crítica (in)directa aos dirigentes da sua editora que pressionava o artista a escrever novos sucessos. Claro que estas não passam de hipotéticas interpretações de uma letra que só por si pode desencadear um elevado número de diferentes pontos de vista.

A faixa “Mother Father” resulta da segunda colaboração entre a Dave Matthews Band e Carlos Santana. A primeira colaboração surgiu em 1999, inserida no projecto que visava assinalar os trinta anos de carreira do guitarrista mexicano. O resultado foi “Supernatural”, disco desenvolvido sob o formato de duetos que se tornou o mais vendido do guitarrista, inclui “Smooth” com Rob Thomas, “Maria Maria” com Whyclef Jean, “Corazón Espinado” com Maná e “Love Of My Life” com Dave Matthews e Carter Beauford.
Uma nova colaboração com Santana surge em “Mother Father”, faixa que inclui algum sabor latino enunciado na sua introdução quer pela intervenção da guitarra com toque latino quer pelo uso da percussão tocada por Karl Perrazo, percussionista de Santana. O estilo guitarristico de Carlos Santana é pessoal, conhecido por conseguir passar emoções através da sua peculiar forma de tocar: diz-se que consegue pôr uma guitarra a chorar ou cantar, criando uma série de diálogos entre o cantor e a guitarra, que prevê um aumentando gradual da tensão até ao desencadear geral de emoções. Estas características estão implícitas em ambas colaborações de Matthews com Santana, porém, há que admitir que a faixa “Love Of My Life” mostra-se superior à “Mother Father”. Qual o problema central desta segunda faixa? Em primeiro lugar não encontramos qualquer interjeição de Tinsley ou Leroi, uma dupla ausência que não passa despercebida. Esta situação faz com que percamos momentaneamente a noção de que estamos a ouvir um disco de Dave Matthews Band, com a certeza de que esta faixa encaixar-se-ia melhor no álbum a solo de Mathews. Em segundo lugar é impossível deixar de reparar na fraca letra desta canção, cuja base assenta na frase “Mother Father please explain to me” repetida até à exaustão (ao todo 13 vezes), mesmo quando a melodia muda. Porém nem tudo são críticas negativas: há que salientar as interessantes mudanças de compasso (de quaternário simples para quaternário composto), bem como o uso de técnicas de rasgueado - técnica de guitarra acústica/flamenca frequentemente associada ao ambiente latino.

Como já tivemos oportunidade de percepcionar, a estrutura da grande maioria das faixas deste disco obedecem ao formato canção evidenciado através do alternar de secções de verso-refrão, à semelhança do que encontramos na grande maioria da música pop. À primeira audição tudo indica que “Sleep To Dream Her” será a excepção à regra, porém, se a observarmos com atenção constatamos que o formato é essencialmente o mesmo. Não existem dúvidas no que diz respeito ao verso – tudo o que Dave canta tem carácter de verso, desenvolvido através de uma melodia vocal muito repetitiva. Assim sendo, o refrão será a secção em que Leroi executa um solo de saxofone estereotipado, com uma linha melódica bem definida. Tendo em conta que ambas secções alternam entre si, podemos concluir que o formato continua presente… a diferença é que o refrão não tem como solista a voz de Matthews mas sim o saxofone de Leroi.

A derradeira faixa deste disco é o título homónimo deste grupo de canções – “Everyday”. Esta é única música em que o acompanhamento dominante é da guitarra acústica, contrariando a tendência absolutista que a guitarra eléctrica obteve no decorrer deste trabalho. A harmonia tendencialmente simples já tinha sido apresentada ao vivo em “#36”, canção que tinha sido editada no disco ao vivo “Listener Supported” que contou com a participação especial das “Lovely ladies”. O esquema harmónico de “#36” é assim transposto para “Everyday”, cuja letra quase infantil lida com questões humanitárias como o amor ao próximo, incluindo até uma alusão directa ao “All You Need Is Love” - faixa popularizada pelos Beatles em 1967:

All you need is love
Everyday
Everyday
Oh, everyday...
Pick me up, love, from the bottom
Up onto the top, love, everyday
Pay no mind to taunts or advances
I’m gonna take my chances on everyday


Apesar da sua temática inócua (no sentido de não chegar à complexidade de "Cry Freedom" cuja temática era semelhante), “Everyday” é uma das faixas mais queridas dos fãs no contexto de concerto ao vivo, a julgar pela recepção do público e na sua participação activa a cantar “Hani Hani, come and dance with me”, recuperando assim parte da letra de #36 que homenagia Chris Hani, activista assassinado que lutou contra o Apartheid na África do Sul. Em termos musicais não existem grandes factores a assinalar, a não ser a presença de Vusi Mahlasela no inicio da música, artista sul-africano que também lutou contra a discriminação racial exercida pelo antigo regime sul-africano. Mais uma vez Leroi e Tinsley passam despercebidos perante uma textura musical apertada, sendo as suas aparições restringidas ao complemento harmónico executado através de notas pedais (longas).

Podemos referir que no seu todo este é o disco mais homogéneo em termos sonoros, porém quando o comparamos com o restante catálogo da banda percebemos que este é o trabalho mais heterogéneo, de tal forma que será mais fácil encontrar dicotomias do que parecenças. A noção de banda desvanece-se, pelo menos do modo como estávamos habituados a concebê-la: “Everyday” parece muito mais um disco de Matthews a solo com a participação esporádica e especial de Tinsley e Leroi. As contribuições de Carter são simples e impessoais, desprovidas das características idiomáticas que caracterizam o estilo do baterista. Longe vão os tempos em que Stefan tinha conseguido proezas tão emblemáticas como a introdução de “Crush” ou o acompanhamento de baixo em “The Dreaming Tree”. O tempo geral das músicas deste trabalho é muito inferior ao de registos anteriores: a faixa mais curta do disco anterior (“Stay” – 5:07) consegue ser maior que a faixa mais longa deste disco (“Everyday” – 4:43). Esta disparidade deve-se à falta de secções instrumentais e intervenções dos instrumentos solistas, que neste disco vêm-se sufocados pela falta de espaço para brilharem ou porque foram simplesmente substituídos por interjeições de sintetizador.

Se esta sonoridade prejudica de forma directa o papel de todos os elementos da banda, porque é que a mesma aceitou publicar estas músicas? Existem muitos mecanismos problemáticos que surgem no contexto da indústria discográfica: o próprio Matthews referiu em algumas entrevistas as recorrentes pressões dos dirigentes da editora para que a banda lançasse o novo disco a tempo, de modo a garantir o mais rapidamente possível os recursos monetários dispendidos para a confecção do mesmo. Perante estas pressões e na insatisfação geral com o quarto trabalho desenvolvido com Lillywhite, as novas canções escritas por Matthews e Ballard serviram de bóia de salvação temporária… tal como Sefan referiu numa entrevista: “após aquele tempo tumultuoso estávamos abertos a tudo”.
Para alguns “Everyday” é visto como um acidente de percurso, enquanto que para outros é visto como um trabalho “não mau” mas sim “diferente”. Actualmente (2009), o legado deste trabalho quase que não se sente, já que as faixas deste disco são as menos tocadas ao vivo.

Curiosidades:
Inicialmente, o terceiro single seria "When the World Ends" , porém após os ataques de 11 de Setembro 2001 este foi substituído por “Everyday”.
A música "#36" foi originalmente escrita com o objectivo de homenagiar Chris Hani, activista que foi assassinado por lutar contra o Apartheid. Nos concertos a faixa “Everyday” é precedida pela interpolação do público a cantar “Hani Hani, come and dance with me”, muitas vezes com o “Hani” substituído por “Honey”.
Everyday” e “Stand Up” são os únicos discos que não incluem a letra das músicas no artwork.
Este foi o único álbum cuja música e letra foi totalmente escrita por Matthews em colaboração com um produtor (Glen Ballard).

Singles:
1. "I Did It"
Editado: 2001



2. "The Space Between"
Editado: 2001



3. "Everyday"
Editado: 2001




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Um mês após o lançamento de “Everyday” aconteceu algo que a banda não previu: o trabalho suspenso que tinha sido desenvolvido com a supervisão de Steve Lillywhite vazou na internet.
A esmagadora maioria dos fãs ficaram desapontados pelo facto deste trabalho ter sido arquivado em prol de “Everyday”, qualificando as músicas inacabadas como superiores às faixas incluídas no disco produzido por Ballard.
Alguns meses depois a banda regressou ao estúdio para regravar estas faixas - cujo produto final foi “Busted Stuff” - quinto álbum oficial do grupo com a produção a cargo de Stephen Harris.

Busted Stuff was a great album, but once again it was eclipsed by something that the fans really liked which was the leaked Lillywhite Sessions
» Dave Matthews (The Road To Big Whisky - FUSE)

CONTINUA NA PARTE 6
by marcofreitas in somuchtosay.pt.vu

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COMPLEMENTO LÍRICO by adhara

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
"
Cântico Negro - José Régio

A história de Everyday é do conhecimento geral. A banda voltou ao estúdio em 1999/2000 com Steve Lillywhite para iniciar as gravações do seu 4º albúm de originais. Não satisfeitos com o resultado das gravações, com a editora a efectuar algumas pressões no sentido de fazerem música mais "leve", cansados e frustrados decidiram rumar noutra direcção e escolher um produtor diferente, Glen Ballard que em 10 dias escreveu conjuntamente com Matthews as 12 canções que compõem o albúm Everyday.

(Esquecidas no fundo da gaveta ficaram as canções saídas das gravações com Lillywhite, o albúm que originalmente se deveria chamar "The Summer so far" e que posteriormente ficou conhecido como o célebre bootleg "The Lillywhite Sessions").

Escolher Ballard como produtor de um disco teve os seus custos. A sua sensibilidade pop/rock levou-o a tentar encaixar o som da banda - indefinível, inigualável, inclassificável - em estereótipos de música radio friendly que à custa da pretensão de trepar as tabelas de vendas estilhaçou completamente a identidade da banda.

Everyday é - para alguém que não percebe nada de música como eu - a prova do que um bom produtor pode fazer, ou não fazer neste caso, por uma banda. Se Lillywhite conseguiu nos 3 primeiros albúns captar em estúdio o que era o som desta banda naqueles períodos determinados de tempo, Ballard por seu lado conseguiu o impossível: esmagar o espírito da DMB, reduzindo a sua música a melodias desinteressantes com pretensões pop, conseguindo o feito de castrar poeticamente Dave Matthews e musicalmente todos os outros membros da banda.

Pouco importou à sensibilidade comercial de Ballard, a revolução estilística, musical e filosófica que é a música da Dave Matthews Band. De nada interessou ter à disposição Músicos com a qualidade de Moore e Tinsley, quando o que eles tocam são instrumentos tão pouco comerciais como o saxofone e o violino.
O que é que interessou que Carter seja um dos melhores bateristas do mundo, se não o melhor, quando ninguém compra albúns para o ouvir tocar?

A música é um negócio e as bandas são produtos que têm de se adaptar ao mercado para vender. Isto é feito com um calculismo extremo e uma precisão cirúrgica sendo o som das bandas trabalhado até estar apto a ser ouvido, divulgado e comercializado. Nesta óptica de mercado, a originalidade é fortemente desaconselhada, o conformismo e a mediania são premiadas porque asseguram que alguns continuem a dormir em camas feitas de dinheiro.

Dave Matthews que tem um estilo vocal soberbo e único, uma imaginação prodigiosa e perspectivas belas e transcendentes sobre o Amor, não deixa transparecer nada disso nas xaroposas e insuportavelmente delicodoces Angel, Fool to think e Sleep to Dream Her. Cada vez que as oiço, não consigo deixar de pensar "Quem é este homem e o que é que ele fez com Dave Matthews?".

Claro que isto são tudo sentimentos subjectivos de quem gosta de música e não pode deixar de sentir que no geral falta Magia, Fôlego Criativo e Coragem em Everyday. Com algumas honrosas excepções.

When the world ends é uma dessas excepções e será para mim a melhor canção do albúm.
Sobre ela disse Matthews no concerto do Pavilhão Atlântico em 2007 que era "uma canção sobre Amor, Sexo e Morte". Ora uma canção com uma temática destas merece uma análise mais aprofundada.

WTWE descreve, numa primeira leitura, um casal que enquanto o mundo está a desabar à sua volta está a fazer amor, (coisa que, aliás se o mundo fosse acabar devíamos estar todos a fazer, se tivéssemos um pingo de bom senso em nós).

Ao contrário de todas as outras canções de Amor da DMB, o sujeito poético adopta em WTWE um tom imperativo, quase autoritário logo na primeira estrofe, quando se dirige à mulher da canção:

Oh when the world ends
Collect your things
You’re coming with me
When the world ends
You, tuckle up yourself with me
Watch it as the stars disappear to nothing
The day the world is over
We’ll be lying in bed


Ele não a convida para ir com ele, não lhe pede autorização, não lhe pergunta se ela concorda. Só lhe comunica o que vai acontecer. É aparentemente quase arrogante e paternalista em assumir que sabe o que é melhor para a Mulher.

Atitude que só é desculpável porque sabemos que o mundo está a acabar. Porque as circunstâncias assim o exigem, ele assume-se como o herói que dá ordens, que controla a situação, um homem que não perde a cabeça perante o cenário apocalíptico, que pensa, que planeia, que comanda. Ele tem a situação sob controlo, indiferente às dificuldades, a tensões ou crises permanece centrado, calmo não se deixando influenciar pelas circunstâncias dramáticas exteriores ao próprio casal.

Mas o que de mais interessante existe em When the World Ends é que além de controlar as suas próprias emoções o sujeito poético controla também as reacções da mulher à sua pessoa!

Your legs don't work 'cause you want me so ....!!!

É uma frase deveras surpreendente. Como é que o sujeito poético pode saber o motivo pelo qual as pernas da mulher fraquejam ? - longe de mim duvidar do poder de Matthews em fazer tremer as pernas de qualquer mulher, mas notemos por um segundo que o mundo está a acabar, ditaria a lógica que as pernas dela fraquejassem por medo e não por desejo.

A não ser claro que When the world ends fosse - como é - uma fantasia erótica do sujeito poético. Nessa fantasia, ele é um narrador autodiegético e omnisciente. Logo, o senso comum e a razão não fazem qualquer sentido aqui neste lugar em que a proximidade do fim do mundo libertou a paixão reprimida das grilhetas do que é Correcto, Racional e dos Outros.

I’m gonna rock you like a baby when the cities fall
We will rise as the building’s crumble
Midst the burning we’ll be churning
Love will be our wings
Passion rises from the ashes
When the world ends


O Homem e a Mulher que sozinhos são ambos incompletos, uma metade de um todo, juntam-se no acto de Amor até à fusão total. Porque o sexo não é aqui meramente uma fonte de prazer mas um veículo de iluminação espiritual.
As asas (do Amor) e as cinzas (de onde se ergue a Paixão) referidas na estrofe acima são símbolos da imortalidade e do renascimento espiritual do casal, cujas almas se elevam enquanto o mundo acaba.

Don’t you worry about a thing
Just you and me
Floating through the empty, empty
Just you and me
Oh graces
Oh grace
Oh when the world ends


As almas do casal transcendem assim o plano físico e corporal, que deixam de existir porque o mundo está a acab...

What you Are
É outra das grandes canções de Everyday. Mais uma vez as dúvidas de Fé inquietam profundamente o espírito de Matthews que luta com as dificuldades em compreender e aceitar a existência de um Deus irado sempre pronto a julgar e a castigar. Há diversos outros conflitos em What you Are: Conflito entre o ser humano e o ser Divino, a negação a Deus porque não aceita a sua distância em relação aos Homens e aos seus problemas e ao mesmo tempo a obsessão com a sua presença.

The sea is unsparing
We’re all drifting away
Away from you
But I pray for you now
Hoping to god on high
Is like clinging to straws
While drowning oh


A título de curiosidade acrescento que nas interpretações ao vivo de What you Are, tal como acontece muitas vezes nas de Warehouse, é comum Matthews fazer uma interpolação da parte vocal da música Passion de Peter Gabriel (composta para a banda sonora do filme "A última tentação de Cristo" de Martin Scorcese).

Talvez por isso nunca consigo dissociar esse filme da What you Are nem ouvir a What you Are sem pensar no filme.

E What you are sempre me pareceu ser um grito de revolta contra um Deus autoritário, omnipresente mas também, e para grande desespero do sujeito poético, é sempre silencioso e indiferente.

If I had it all
Outro dos bons momento de Everyday está aqui. Musicalmente não será nada de especial mas liricamente entra em territórios mais familiares e confessionais. É uma canção que me toca pela sua honestidade num albúm que incomoda pela falta desta.

Sometimes I can’t move my feet it seems
As if I’m stuck in the ground somehow like a tree
As if I can’t even breathe
And my screams come whispering out
As if nobody can even see me
Like a ghost
I can’t see myself sometimes


O sujeito poético que tem toda a exposição mediática de uma celebridade sente-se mesmo assim invisivel aos olhos dos outros porque ele não é somente a imagem da pessoa que oferece ao mundo e que o mundo lhe devolve, é muitos outros eus escondidos dele próprio e das outras pessoas. É esse o seu grande conflito interior nunca saber verdadeiramente quem é porque é um e vários ao mesmo tempo.

Then again if I were a king
If I had everything
If I had you
And I could give you your dreams
If I were giant size
On top of it all
Tell me what in the world would I sing for
If I had it all


Por outro lado, se ele tivesse tudo o que pensa que devia ter: Poder, Dinheiro, Amor que motivações lhe restavam para continuar a viver. Deixar de sonhar e de desejar é morrer.

Ainda que tematicamente não acrescente nada de novo, So Right consegue ser uma das poucas músicas interessantes de Everyday, principalmente porque nela sobressaem as palavras abaixo que apetece enfiar pelos ouvidos dentro de cada um dos elementos da banda:

Don't rob yourself of what you're feeling
Don't rob yourself of all that you could be


Everyday fica assim na história da longa carreira de DMB como exemplo daquilo que a DMB não devia ser. Não era um grande disco há 10 nos quando saiu, e ainda o é menos agora. A música é banal, e comum, falta o virtuosismo dos músicos que foram remetidos a segundo plano. LeRoi quase não aparece, Boyd praticamente desaparece e Carter parece ter as mão algemadas quando tocou em Everyday. As letras não têm nada de excepcional e são na sua grande maioria insípidas e desinspiradas parecendo não ter o cunho pessoal de Matthews.

Não sendo um albúm verdadeiramente MAU, Everyday é um albúm fraco e mediano o que ainda é pior!

Não é suficiente bom para se gostar dele, nem suficientemente mau para não se gostar. É quase neutro, não desperta paixões arrebatadas como os 3 primeiros albúns nem ódios como o Stand Up. Não se ama nem se odeia, fica-se quase indiferente a ele. Será precisamente esse o meu grande problema com Everyday, ele contenta-se com a mediocridade.

E a mediocridade não é aceitável, especialmente quando estamos a falar da melhor banda do mundo.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Discografia comentada- Before These Crowded Streets (parte 4)

Após o lançamento de “Live at Red Rocks (1995)”, a Dave Matthews Band voltou ao estúdio para escrever e produzir de raiz uma dezena de novas canções. O resultado foi um dos álbuns mais obscuros da banda, contribuindo para que “Before These Crowded Streets” sirva de charneira para delinear o fim de uma era… e o eclodir de uma nova.
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BEFORE THESE CROWDED STREETS


Editado: 28 Abril de 1998
Tempo total: 70:14
Editora: RCA
Produtor: Steve Lillywhite

Faixas:
1. "Pantala Naga Pampa" – 0:40 »
2. "Rapunzel" – 6:00
3. "The Last Stop" – 6:57
4. "Don’t Drink The Water" – 7:01 (Interlude 1 »)
5. "Stay (Wasting Time)" – 5:07 »
6. "Halloween" –7:28
7. "The Stone" – 7:28 (Interlude 2 »)
8. "Crush" – 8:09
9. "The Dreaming Tree" – 8:48 (Interlude 3 »)
10. "Pig" – 6:57 (Interlude 4 »)
11. "Spoon" – 7:33 (The Last Stop Outro)

Gravado em: The Plant Studios, Sausalito, CA & Electric Lady Studios, New York, NY,

Come and relax now
Put your troubles down
No need to bear the weight of your worries
Just let them all fall away.


É irónico que esta introdução esteja incluída em “Before These Crowded Streets”, já que ao contrário do que acontece nos discos anteriores, a temática e sonoridade dominante deste trabalho não é de todo relaxante ou impregnada de paz. Os “problemas” e “preocupações” que Matthews apela que deixemos para traz são logo recuperados em faixas agonizantes como “The Last Stop”, “The Dreaming Tree”, “The Stone” ou até mesmo “Don't Drink The Water”. A sonoridade adensa-se e as letras denunciam uma crise identitária cuja origem pode estar no eclodir de uma nova crise humanitária. Porém, no meio de um panorama obscuro nem tudo se perdeu: ainda subsiste a esperança e alegria em “Crush”, “Pig”, “Rapunzel” ou “Stay”, momentos isolados onde reencontramos o ID gerador da banda, quer na temática quer na sonoridade dominante.

“Before These Crouded Streets” serve de protótipo para uma agonizante viagem pelos aspectos mais sombrios da banda. Mas de que modo é que estas diferenças se traduzem nos materiais musicais? Porque é que este disco é frequentemente visto sob um pano de fundo negro, noctívago e lutuoso? Estas são as questões centrais a desenvolver nesta análise.

Após a introdução “Pantala Naga Pampa” (que significa “cobra nas calças” em Tamil coloquial) avançamos directamente para “Rapunzel”, o primeiro grande “monstro” desta colecção. Esta faixa cimenta a teoria de que Dave Matthews Band é uma banda com fortes reminiscências funk: as interpolações da guitarra eléctrica (possivelmente tocada por Reynolds) bem como as constantes alternâncias rítmicas desenvolvidas por Carter na bateria são factores que denunciam estas influências. Aliás em toda a faixa encontramos várias mudanças de compasso: a introdução em 5/4; o verso está na sua globalidade em 4/4, exceptuando o momento em que Dave canta “I do…my best… for you…I do…love” – está em 6/4; o refrão “I think the world of you, all of my heart I do” obedece também à time signature de 6/4. Esta mudança brusca de compassos é a razão pela qual “Rapunzel” é das faixas mais complexas em termos rítmicos, salientando deste modo uma das características fundamentais que compõem uma pseudo sonoridade DMB.
A versatilidade vocal de Dave Matthews atinge um dos seus momentos hegemónicos no decorrer deste disco. Em algumas faixas Dave canta de forma visceral, assemelhando-se em alguns casos como um protótipo de canto gutural (a desenvolver posteriormente), enquanto em outras faixas aperfeiçoa os seus falsettos e canta de forma “doce”. No caso específico de “Rapunzel”, Dave efectua uma melodia que poderia ser muito simplista se o vocalista não resolvesse trauteá-la em diferentes oitavas:



A imagem anterior apresenta um fragmento do verso de “Rapunzel”: os dois quadrados assinalam as mesmas notas (sibemol e sol), porém em oitavas diferentes. Estes saltos de oitava e nona são característicos do tratamento vocal em Dave Matthews (o refrão de “Satellite” inclui um dos exemplos mais óbvios desta técnica).

No final desta música surge um elemento novo à textura sonora da banda: o som do piano. Intensifica-se aqui uma próxima relação entre Butch Taylor e a banda, uma colaboração que durou cerca de 10 anos. Neste disco o papel do piano mostra-se muito superficial, cingindo-se nas suas duas aparições (”Rapunzel” e “Crush”) a pequenos apontamentos que preenchem a textura musical. Só no álbum “Stand Up” (2005) é que encontramos faixas construídas sobre um acompanhamento harmónico do piano, especialmente em faixas como “Steady As We Go”, “Smooth Rider” e “Out Of Our Hands” (a analisar na parte 7). O saxofonista Leroi volta a ser o rei desta faixa, com uma série de passagens muito virtuositas que servem de charneira para a faixa seguinte.

Em “The Last Stop” encontramos uma tentativa de emular um ambiente musical com características orientais. Estas sonoridades não são novas na carreira da banda, já em “Minarets” encontramos este tipo de escalas (ver parte 1). Este exotismo musical resulta (entre outros) do recorrente uso de ornamentação melismática, bem como da alteração de alguns graus de uma escala Maior, de modo a salientar algumas características da música oriental como o salto de 2ªaumentada.



A sonoridade tendencialmente oriental desta faixa pode provocar alguma polémica, principalmente quando percepcionamos a temática da mesma:

Fire grows from the east
How is this
Hate so deep
Lead us all so blindly killing killing
Fools we are
If hates the gate to peace
This is the last stop
For raining tears
War
The only way to peace
I don’t fall for that


Podemos depreender que esta faixa surge como uma critica à eminente guerra entre o ocidente e oriente: a sonoridade oriental ganha força com a referência ao “east”; por outro lado, as referências bíblicas que aludem à crucificação de Cristo lembram a razão da maioria destas guerras - a luta em nome de Deus - جهاد‎ ou gihād:

Gracious even God
Bloodied on the cross, your sins are washed enough
A mother’s cry
“Is hate so deep?
Must a baby’s bones this hungry fire feed?


Estávamos em 1998, quatro anos antes dos ataques de 11 de Setembro de 2001. É interessante lembrar que em 1998 a Inglaterra e América uniram forças com o objectivo de bombardear alguns pontos estratégicos do Iraque, naquela que foi apelidada de operação Desert Fox. Estavam a surgir os antecedentes que contribuíram para as primeiras guerras do século XXI.
A forma visceral como Dave canta esta letra obscura mostra-nos outra faceta interessante da técnica vocal de Dave Matthews. Já percepcionamos resíduos desta técnica em “Rhyme And Reason”, porém nesta faixa Dave vai bem mais longe ao passar uma noção angustiante, quase proporcional ao grito ofegante de dor através das notas mais agudas. Durante o decorrer desta música (especialmente no fim) notamos a existência de mais uma sonoridade estranha à banda: o som de um banjo. Esta sonoridade é praticamente exclusiva a este disco, com a excepção de casos pontuais como a faixa “Alligator Pie” do disco “Big Whisky And The GrooGrux King” (a desenvolver na parte 8).

A participação de Bélla Fleck a tocar banjo estende-se até à faixa seguinte “Don't Drink The Water”, que para espanto de muitos foi assinalada como primeiro single do disco. A temática desta música dá azo a diferentes interpretações: se para alguns esta fala sobre a luta contra o apartheid em África do Sul, a opção que parece ser mais sensata aponta para os antagonismos entre o autoproclamado mundo “civilizado” e os índios norte-americanos, cantada sob o prisma dos colonizadores:

Away, away, you have been banished.
Your land is gone, and given to me.
And here I will spread my wings.
Yes, I will call this home.
Whats this you say, you feel a right to remain?
Then stay and I will bury you.
What's that you say, your fathers spirit still lives in this place?
Well, I will silence you.


Após o processo de independência dos Estados Unidos, os conflitos entre os colonizadores e os povos indígenas aumentaram significativamente. A resistência da civilização indígena prolongou-se até o final do século XIX, época em que a destruição das populações nativas da América do Norte estava eminente. A referência obscura cantada por Dave - “Don’t Drink The Water, There’s Blood In The Water” - lembra o sangue indígena derramado pela tirania do homem moderno durante estes conflitos históricos.

A temática desta faixa é transposta para os elementos musicais através de sombrias interjeições do saxofone e violino, auxiliadas por melodias vocais que parecem emular uma vocalidade imaginária destes povos (principalmente no fim da faixa). Estas melodias vocais finais ganham um renovado ímpeto com a inclusão de Alanis Morisette. Em 1998 a cantora gozava de uma enorme popularidade, essencialmente devido às elevadas vendas (mais de 30 milhões de cópias) do seu primeiro álbum internacional “Jagged Little Pill”, produzido por Glen Ballard (o mesmo produtor de “Everyday”, ver parte 5), lançado pela editora “Maverick” cuja maior associada era Madonna. A escolha de Morissette para participar neste disco poderá constituir uma estratégia de marketing? Para obtermos resposta a esta questão teríamos de perguntar directamente à banda ou ao produtor Lillywhite... Mas se tivermos em conta a elevada exposição mediática que a cantora vinha a receber nos últimos anos, há que admitir que esta seria uma oportunidade perfeita para transportar essa atenção para a banda. Por outro lado pode ser demasiado redutor ver a participação de Morissette como um mero golpe publicitário, já que não podemos destituir a heterogeneidade vocal desta artista, cuja forma de cantar e expressar vai de encontro com a sonoridade geral deste registo. A escolha desta faixa como primeiro single prova a necessidade da banda em desbravar novos elementos musicais que contrastam com as escolhas dos discos anteriores.

O segundo single deste disco foi “Stay (Wasting Time)”, faixa onde deixamos as temáticas pesadas para voltarmos momentaneamente à superfície e luminosidade. A letra desta música faz uma descrição pormenorizada de momentos vividos entre o sujeito poético e a sua cara-metade, abordando a já recorrente temática de aproveitar e valorizar cada momento da vida. Curiosamente esta é a única faixa deste disco onde encontramos o modelo composicional de um riff inicial que se prolonga até ao verso, fórmula basilar para a construção da maioria das músicas dos primeiros dois registos. Sendo esta a única faixa construída nesses moldes, nota-se que em “Before These Crowded Streets” a banda decidiu aventurar-se por novos caminhos composicionais. Um novo elemento sonoro surge com a participação especial das “Lovely Ladies”, grupo de três cantoras afro-americanas que providenciam uma série de background vocals que culmina numa Jam colectiva (banda e cantoras) no fim da faixa.

O ambiente festivo, quase apoteótico de “Stay” entra em dicotomia geral com “Halloween”, faixa que marca o retorno à obscuridade. Esta faixa faz parte da colecção de composições iniciais da banda (1991), cujo único registo encontrava-se em versão de concerto no EP “Recently”. Numa fase inicial esta faixa foi recuperada e gravada em estúdio com o objectivo de ser incluída na banda sonora do filme “Scream 2”. Satisfeitos com o resultado final, a banda decidiu adicioná-la neste disco. “Halloween” destaca-se no catálogo da banda como a faixa mais agressiva em termos vocais, aproximando-se em alguns momentos do canto gutural, técnica vocal que produz um som rouco, comummente referido como canto de garganta, rasgado ou gritado.

And in this dream
Tell us are you satisfied with fucking
Oh walk away
Don’t walk away
I’m talking to you
Love is hell
Love this I'll tame you


A letra obscura e rancorosa desta faixa parece desconstruir uma visão harmoniosa e funcional do amor. Segundo algumas publicações, nomeadamente “The Dave Matthews Band: Step Into The Light” de Morgan Delancey (2001), esta faixa foi escrita para uma ex-namorada de Matthews após esta ter recusado pedido de casamento. Ainda mais curioso será confirmar que esta letra não se encontra presente no booklet do disco, talvez porque esta é das únicas faixas da banda onde encontramos palavras impróprias para audiências mais jovens como o uso do verbo to fuck.
No fim da faixa encontramos um novo elemento à paisagem musical deste disco com a interpretação de Kronos Quartet, grupo de cordas friccionadas especializado em interpretações da chamada música contemporânea vanguardista. Esta colisão entre a música de tradição clássica/erudita com a música de Dave Matthews Band é auxiliada pela prestação final de Matthews a executar uma série de melodias com voz de peito, técnica comummente associada à música de tradição clássica/erudita.

A passagem para a faixa “The Stone” é executada por este quarteto de cordas através de uma harmonia não funcional, no sentido em que assistimos a um acumular de tensões dissonantes que nunca se resolvem. Antes de mais há que referir que os conceitos de dissonante ou consonante são extremamente subjectivos, e neste caso, para apelidar este segmento de dissonante apoio-me no facto dos acordes incluírem várias sétimas e nonas sobrepostas sem qualquer resolução ou curso harmónico definido (ao contrário do que acontece na grande maioria da música pop). Uma noção de música dissonante vai de encontro com uma ideia de desequilíbrio, tensão e conflito… sentimentos que se enquadram na temática descrita em ambas faixas. A orquestação foi escrita por John D'earth, o grande responsável por dar um ambiente inquietante a ambas faixas. O próprio D'earth faz algumas interpolações no trompete com surdina no inicio da secção instrumental de “Halloween”.

...long way, ah, from that fools mistake.
And now forever pay, no run, I will run and I’ll be ok.
I was just wondering if you’d come along.
Hold up my head when my head won’t hold on.
I'll do the same if the same what you want,
But if not I’ll go, I will go a long......
long way, to bury the past for I dont want to pay.
Oh how I wish, this, to turn back the clock and do over again.
"

A letra desta faixa constitui mais um daqueles exemplos em que a temática pode sugerir diferentes interpretações: “The Stone” pode ser uma referência à lápide de um defunto que reflecte sobre o tempo em que passou em vida; por outro lado existem outras interpretações que apontam para as temáticas bíblicas, nomeadamente a alusão ao “that Fools Mistake” que podemos interpretar como uma alusão indirecta a Judas Iscariot. A adopção de temáticas bíblicas não é nova na carreira da banda, já que em algumas faixas como “The Last Stop”, “Minarets” e “Bartender” encontramos esta tendência (nesta última encontramos uma menção directa a Judas).

Em termos musicais, ”The Stone” inicia-se com um riff (em 6/8) que ao contrário da maioria das faixas desenvolvidas com esta técnica, não se prolonga até ao refrão. A textura musical desta música é dominada pela orquestração executada pelo já referido Kronos Quartet com uma harmonia densa. É curioso observar que no fim da faixa Leroi executa no saxofone um segmento de “Can't Help Falling In Love”, faixa inicialmente popularizada por Elvis Presley, recuperada na Jam final desta faixa.
Para já é interessante referir que todas as faixas que analisamos até agora incluem a participação especial de um ou mais convidados especiais. Parafraseando o produtor Lillywhite, «com este disco o objectivo era trazer elementos novos, trazer convidados para o estúdio»… em termos musicais foram estes convidados que trouxeram novas texturas musicais ao trabalho da banda, contribuindo para que este fosse aclamado por muitos fãs e críticos como o trabalho mais cosmopolita do grupo. Por outro lado, o elevado uso de convidados faz com que seja rara a reprodução destas músicas ao vivo com os elementos originais (exceptuando casos muito pontuais em que estes artistas tocaram ao vivo com a banda).

A nossa análise continua após um segundo interlúdio instrumental que nos guia até a próxima faixa: “Crush”. Muito já se falou do papel de Dave, Carter, Tinsley e Leroi… muito já se falou da participação especial de alguns convidados neste disco… porém existe um nome que até aqui não teve tempo para brilhar: o baixista Stefan Lesssard. O elemento mais novo da banda (que em 1998 tinha apenas 24 anos) desenvolveu o seu processo criativo ao escrever em conjunto com Matthews algumas das faixas chave deste disco, tais como “The Dreaming Tree” ou “The Last Stop”. Nos dois primeiros álbuns a prestação de Stefan reduzia-se à marcação rítmica e harmónica da harmonia base, salvo algumas excepções. Neste disco Stefan aventura-se com linhas de baixo mais autónomas e com riffs que se tornaram a imagem de marca de DMB. Observemos o riff de “Crush”:



O que torna este riff especial é o ritmo tendencialmente irregular presente no mesmo, que é de resto uma das características mais comuns dos segmentos de baixo de Stefan. Após esta introdução a textura musical adensa-se com interpolações de saxofone, guitarra eléctrica, violino, piano e orgão (ambos instrumentos de tecla tocados por Butch Taylor) enquanto Dave canta a doce letra de “Crush”.
Mais uma vez temos de fazer uma menção honrosa à forma como Dave conduz os trechos vocais, não só através de letras que nunca se repetem mas também de um complexo jogo rítmico que marca a individualidade de cada verso/refrão. A imagem seguinte apresenta um complexo padrão rítmico num dos refrões:



The Dreaming Tree” continua a complexa odisseia rítmica com uma time signature de 7/8. A auxiliar esta complicação rítmica encontramos uma das prestações mais versáteis de Carter Beauful a executar uma série de rudimentos que destabilizam uma noção de pulsação. Mais uma vez há que salientar o papel de Stefan com uma estupenda linha de baixo que entra em destaque durante o verso. Em termos líricos deparamo-nos com uma das temáticas mais introspectivas de Dave Mathews Band, através de uma alusão à necessidade de retorno a um passado perdido que entra em contradição directa com o presente caótico:

Standing here
The old man said to me
Long before these crowded streets
Here stood my dreaming tree
Below it he would sit
For hours at a time
Now progress takes away
What forever took to find


É desta busca de uma aura perdida que encontramos o titulo deste disco, como uma tentativa de recriar ou pelo menos lembrar um mundo perdido que é valorizado pelo sujeito poético em detrimento do presente. Este tipo de dicotomias foi explorado anteriormente em faixas como “Proudest Monkey”.

Após mais um interlúdio instrumental (que por sinal é parecido com "Anyone Seen The Bridge", secção transitória usada nos concertos entre as faixas "So Much To Say" e "Too Much") encontramos “Pig”, faixa que marca um momento ligeiro antes da introspecção final de “Spoon”. Em termos temáticos voltamos a encontrar a já recorrente temática “Carpe Diem”, elucidada em frases como “Don't burn the day away” ou “Come sister, my brother Shake up your bones, shake up your feet”. Por outro lado há quem acredite que existe uma razão muito mais obscura para esta faixa, cuja inspiração surgiu após Dave ver um programa televisivo onde porcos eram queimados com o objectivo de testar as suas reacções à dor. Em termos musicais não existem muitos apontamentos novos a adicionar… apenas o facto desta ser a faixa onde Boyd Tinsley surge com maior destaque.

Após um quarto interlúdio musical deparamo-nos com a derradeira faixa deste disco: “Spoon”. A letra desta música volta a lembrar o quão ambígua e holística pode ser uma letra de DMB, com referências a diferentes símbolos como a cruz de Jesus, e a sentimentos como a alegria e a tristeza:

From time to time
Minutes and hours
Some move ahead
While some lag behind
Like the baloon that rise
And then vanish
This drop of hope
That falls from his eye


No fim tudo parece convergir para um optimismo, para a busca de um futuro esperançoso. Em termos musicais reencontramos Alanis Morissette, desta vez com um papel bem mais alargado que em “Don’t drink the water”. Bélla Fleck volta a tanger o seu banjo até o eclodir de mais uma JAM final. É interessante percepcionar que todas as faixas deste disco acabam com uma JAM, o que explica o aumento da duração geral das faixas, principalmente quando comparamos com os tempos dos dois primeiros registos.

Tal como a capa do disco indica, “Before These Crowded Streets” é um trabalho escuro cujas temáticas heterogéneas são unificadas nesta contínua obra musical que trespassa diferentes sentimentos, imagens, filosofias e convicções. Neste disco falou-se da lenda de “Rapunzel”; falou-se da eminente guerra entre o ocidente e o oriente; fizemos uma reflexão sobre os quase extintos índios norteamericanos; encontramos sentimentos distorcidos resultantes da recusa amorosa; falamos de nostalgia; falamos de amor e ainda tivemos tempo para fazermos mais uma menção à recorrente temática “Carpe Diem”… Em termos musicais este foi o disco cujas sonoridades experimentais atingiram uma enorme complexidade, principalmente devido à inclusão de novos elementos sonoros importados de artistas convidados. Alguns destes elementos como a inclusão do banjo constituem um factor que diferencia a paisagem musical deste de outros discos lançados pela banda.

Esta foi a primeira análise deste conjunto de discografias comentadas cuja ordem seguiu uma perspectiva diacrónica (ou seja, com a ordem das faixas sequenciada ao longo do tempo). Esta opção deve-se ao facto da grande maioria das faixas estarem conectadas por pequenos interlúdios instrumentais ou por fragmentos transitórios que garantem a fluência musical deste trabalho. Ao todo existem cinco interlúdios musicais, entre os quais um conclusivo que se inicia alguns segundos após terminar “Spoon”. Para além destes pequenos trechos existem algumas faixas que estão ligadas entre si através de sons quotidianos (como exemplo Rapunzel » The Last Stop) ou através de uma pequena secção instrumental (como exemplo Halloween » The Stone). Tendo em conta estas características únicas na discografia da banda, podemos afirmar que “Before These Crowded Streets” é muito mais que um conjunto de músicas aleatórias… é uma obra completa que se inicia e completa sobre si mesma, proporcionando ao ouvinte um círculo perfeito. Tal como na introdução deste disco, Dave volta a falar em discurso directo para o ouvinte nos momentos finais:

"Come in from the cold for a while
Everything will be alright
Come in from the noise for a time
Everything will be alright
Everything will be alright
For now, goodbye, friend,
Goodbye.
"

É deste modo que se completa este disco… é deste modo que se encerra uma próspera era da carreira da banda.

Curiosidades:
A voz de Leroi Moore é ouvida no telefonema incluído na transição de “Rapunzel” para “The Last Stop”;
O título do álbum surge na letra de “The Dreaming Three”;
A letra de “Halloween” não está presente no booklet do disco;

Singles:
1. "Don’t Drink The Water"
Editado: 1998



2. "Stay (Wasting Time)"
Editado: 1998


3. "Crush"
Editado: 1998


4. "Rapunzel"
Editado: 1998



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Em 99-00 a banda voltou ao estúdio para gravar um novo trabalho com a supervisão de Steve Lilliwhite. As letras destas novas faixas mostravam-se ainda mais obscuras que as de “Before These Crowded Streets” e como consequência a editora começou a a exercer pressões para que a banda produzisse um novo “Tripping Billies”.

The vibe was not very good. Dave had to dig into his soul... and what was coming out was pretty interesting"
»Steve Lillywhite

"In the end, the way to get out of that was to move away from the whole thing... including Lillywhite (…) Apart from moving on, after six mouths I was open to everything"
»Stefan Lessard

De modo a tentar encontrar o single perfeito, Matthews reuniu-se com Glen Ballard, o mesmo produtor que levou à ribalta "Jagged Little Pill" de Alanis Morisette. Após uma semana de trabalho Matthews e Ballard escreveram não três mas doze músicas novas. Apesar de algumas das suas faixas terem sido apresentadas ao vivo, as sessões com Lillywhite ficaram esquecidas nas gavetas do estúdio e as novas canções foram lançadas no álbum "Everyday" com a produção a cargo de Glen Ballard. O resultado foi… imprevisível.

"Everyday" made us turn more toward what was happening in the music around then... made us more like other stuff
»Dave Matthews

Citações de "The Road to Big Whisky - FUSE"

CONTINUA NA PARTE 5

by marcofreitas86 in somuchtosay.pt.vu

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COMPLEMENTO LÍRICO (by adhara in somuchtosay.pt.vu)

"Quando estou realmente feliz não quero escrever, quero sentar-me lá fora a apanhar sol! Se estou feliz quero ir beber uma cerveja e estar na risota. Se estou triste, magoado ou obcecado, aí sim, quero fazer música."
Dave Matthews in Blitz Agosto 2009

Na recente entrevista que deu ao Blitz, Dave Matthews referiu que uma das maiores forças criativas que o impelem a escrever é o sofrimento. De facto, Before These Crowded Streets prova que é quando Matthews está triste, frustrado, angustiado e furioso com o mundo e com a vida que escreve algumas das melhores, mais complexas e ambíguas letras da DMB - neste álbum que muitos consideram o mais negro e difícil da carreira da banda.

As letras de Dave Matthews nunca tiveram uma componente política, social e religiosa tão intensa e marcada mostrando um lado de Matthews mais interventivo e socialmente relevante.

Em Before These Crowded Streets, Matthews disseca a alma humana, expõe as hipocrisias do moralismo religioso em "The Last Stop", do colonialismo em "DDTW" e questiona-se sobre a sua Fé em Deus e na Humanidade, "The Dreaming Tree" e "Spoon" e por fim defende em "PIG" que o Amor como conceito universal é o único caminho a seguir na Vida.

De facto, ainda que à primeira vista não pareça, o Amor está presente em todo o álbum. Todas as faces do amor são evidenciadas nas canções que abordam a temática do amor homem/mulher e parecem-me representar diversos tipos de amor que o sujeito poético terá sentido ao longo da sua vida: o Amor idealizado da juventude em Rapunzel, o Amor descoberto e a paixão inicial em Stay (wasting time), o Amor destrutivo e não correspondido em Halloween, o Amor como força redentora do carácter de uma pessoa em The Stone, o Amor verdadeiro e adulto baseado em saber, experiência e alguma melancolia em Crush.

Rapunzel é o conto de fadas infantil que conta a história de uma menina que aos 12 anos é encerrada numa torre por uma bruxa má. Sendo a torre muito alta, Rapunzel não consegue descer mas utiliza o seu longo cabelo louro que entrança e atira ao longo da torre para permitir que o príncipe suba a torre e vá ter com ela.
Matthews parte da mesma ideia para escrever uma canção deliciosa sobre o Amor idealizado e inocente da juventude (inocente no sentido em que é inexperiente e não que não é consumado).
Para mim pessoalmente, é intrigante Matthews ter escolhido o conto infantil da Rapunzel (e não a Branca de Neve ou a Bela Adormecida por exemplo, dois dos contos mais populares no imaginário infantil). A grande diferença que existe entre a Rapunzel e as outras heroínas referidas é que, apesar de estar presa Rapunzel não está à mercê de nenhum homem que a queira beijar para a libertar. Ela tem uma liberdade que as outras não têm - a liberdade de escolha- é ela que decide se quer ou não que o príncipe vá ter com ela. A última palavra é sempre dela. Agrada-me pensar que Matthews poderá ter sido sensível a isso. O facto dele se identificar com o príncipe que só escolhe a mulher que quer ser escolhida diz muito da sua personalidade.
Embora uma vozinha cínica na minha cabeça me diga que será bem mais provável que Matthews tenha escolhido o conto de fadas da Rapunzel simplesmente porque estava apaixonado por uma mulher loira que usava tranças… Mas estamos aqui no reino dos contos de fadas e eu reservo-me também o direito a fantasiar um bocadinho.

Entre muitas frases deliciosas de Rapunzel, há uma que eu gosto particularmente que é quando o sujeito poético vai ter com a Rapunzel da canção e se depara com a porta fechada. Ao invés de ficar aborrecido ou contrariado, reage com a seguinte frase:
"Good they locked the door"
Matthews percebe que quando estamos apaixonados os obstáculos ao Amor, tanto na vida real como nos contos de fadas, são como achas atiradas directamente para a fogueira, em vez de matarem o amor as contrariedades só o fazem arder com mais intensidade.
Sempre que oiço a Rapunzel lembro-me da frase famosa de Romeu a explicar a Julieta como tinha conseguido trepar o muro da casa dela:
"Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar".
(Romeu e Julieta- Acto II - Cena I - William Shakespeare)

Como nota de curiosidade, acrescento ainda que esta temática do amante intrépido que tem de enfrentar vários perigos para chegar à sua amada e consumar o amor é um tema recorrente nas letras de Matthews que voltaria a ele em "Smooth Rider" e em "Cornbread". Provando assim que são precisos mais que muralhas, torres altas, pais furiosos com caçadeiras para travar o amor impetuoso da juventude.

Só se pode Amar assim - com esta entrega, com esta inocência, com este entusiasmo - uma vez na vida. Quando somos tão jovens que a vida e a realidade ainda não se encarregaram de nos tirar as ilusões que temos em relação ao Amor - principalmente a maior ilusão de todas - a de que as desilusões de Amor só acontecem aos outros.

Stay (wasting time)
Em Stay, o sujeito poético descreve os sentimentos iniciais da relação amorosa quando queremos estar sempre com a pessoa amada a aproveitar todo o tempo que temos com ela. Stay seria uma canção comum e banal (isto é, para os parâmetros da Dave Matthews Band) e talvez aquela que do ponto de vista lírico fosse a menos interessante do álbum. Mas Matthews atira-nos com esta estrofe à traição:

"Remember you were talking
I watched as sweat ran down your face
Reached up and caught it at your chin
Licked my fingertip
"

O que é que se pode dizer de uma estrofe destas?
Que só Dave Matthews escreveria uma estrofe assim.

Halloween
É a única canção do álbum que não tem a letra escrita no booklet do cd. Matthews diria mais tarde que a razão para isto foi porque não queria que a mãe lesse os palavrões que ele lá tinha escrito. De facto, Halloween é um lamento profundo e angustiante sobre o sofrimento que causa o Amor não correspondido.

"Why this lonely
Why this lonely
why this lonely love...
"

Dado que o amor não é recíproco, a intensidade dos sentimentos do sujeito poético, não faz mais que acentuar o seu desespero de ser constantemente atraído e constantemente rejeitado pela pessoa amada:

"Love is hell
Love is hell
Love is hell
Love this I'll tame you
"

Alguns fãs de DMB dizem não gostar da Halloween porque Matthews grita imenso na canção. Eu gosto da Halloween precisamente por isso.
Os gritos de Matthews não são um mero recurso estilístico para impressionar os ouvintes com o controle fantástico que ele tem sobre a sua voz (como tantas vezes o fazem outros cantores), porque são gritos perfeitamente contextualizados na canção. São gritos de um homem que tem o coração a sangrar e a Alma dilacerada pela Dor. Uma dor primitiva, que vem das entranhas daquele homem que nos mostra com honestidade, sem fingimentos, sem subterfúgios que é assim que soa um homem que está a sofrer por Amor.

(Halloween foi escrita sobre a já famosa ex-namorada de Matthews, Julia Grey, após esta ter rejeitado três pedidos de casamento dele. Ainda que a confirmação venha da boca do próprio Matthews, eu pessoalmente defendo a teoria de que a Julia Grey não existe e não passa de um mito urbano. Recuso-me a acreditar na existência de uma mulher que rejeitasse um, quanto mais três pedidos de casamento de Dave Mathews!)

The Stone
Em The Stone, o sujeito poético debate-se com o peso do seu passado que carrega no coração ou nos ombros como uma pedra. A culpa atormenta-o, alguma acção cometida no seu passado - que nunca sabemos qual foi - impede-o de viver a sua vida e força-o a fugir dos seus problemas e das pessoas que o rodeiam.

"Yes I've done wrong
But what I did
I thought needed be done
"

Mas de facto não é o passado que interessa na The Stone, interessa somente que o sujeito poético consegue contemplar a possibilidade de se redimir dos seus pecados e da sua culpa através da possibilidade de um Amor a alguém que se adivinha no refrão:

"I was just wondering if
you'd come along
To hold up my head when my head
won't hold on
I'll do the same if the same's what you want
"

No final da canção o saxofone de Leroi Moore toca algumas notas de "Can't Help Falling in love with you" de Elvis Presley (aliás a "Can't Help Falling in Love with you" do Elvis é uma interpolação comum nas versões ao vivo da The Stone).

"Wise men say only fools rush in
But I cant help falling in love with you
"

"Os homens sábios dizem que só os tolos se apressam
Mas eu não consigo evitar apaixonar-me por ti
"

De facto, não se pode apressar o Amor, sobretudo quando dele depende a salvação ou não da nossa Alma.

Crush é uma das mais bonitas canções de amor que jamais foram escritas.
Matthews já mencionou diversas vezes que a sua mulher Ashley foi a grande inspiração para esta canção de Amor belíssima que parece corporizar a ideia de que as duas almas das pessoas da canção percorreram um longo caminho de sofrimento na vida antes de finalmente encontrarem o Amor.

"It's crazy, I'm thinking
just as long as you're around.
And here I'll be dancing on the ground.
Am I right side up or upside down?
To each other, we'll be facing.
By love, By love, we'll beat back the pain we've found.
You know, I mean to tell you all the things I've been thinking, deep inside my
Friend.
With each moment the more I love you. crush me, come on, baby.
"

De uma beleza simultanenamente emocionante e serena, com uma grande riqueza de ritmos e sonoridades, Crush representa uma dimensão imaginária de um casal que naquela canção transcende o universo, o espaço e o tempo. Sublime.

Don't Drink the Water
Uma das coisas mais fascinantes em DDTW é o facto dela ser cantada não do ponto de vista das vítimas (como seria habitual em Dave Matthews que claramente se identifica com as vítimas) mas do ponto de vista do agressor (o colonizador que rouba as terras aos nativos). Isto resulta brilhantemente no resultado final da canção. O sujeito poético é um daqueles homens que acredita que os fins justificam plenamente os meios. O mundo para ele é como um tabuleiro de xadrez cujos movimentos ele controla tendo em vista a vitória final. É cruel e impiedoso com os mais fracos ou com quem quer que seja que se atravesse no seu caminho e é completamente insensível aos sentimentos dos outros, sentimentos que, aliás, ele vê como um sinal de fraqueza.

"Now as I rest my feet by this fire
Those hands once warmed here, but I have retired them.
I can breathe my own air and I can sleep more soundly
Upon these poor souls,
I'll build heaven and call it home.
Cause you're all dead now.
"

A falta de consciência em quem tem poder traz sempre consequências destrutivas. Por fim, com todos fora do seu caminho, o sujeito poético vive agora no paraíso, onde a sua palavra é lei, a sua vontade soberana:

"I live with my justice
And I live with my greed in me
I live with no mercy
And I live with my frenzy feet
I live with my hatred
And I live with my jealousy
I live with the notion that I don't need anyone but me
"

É um homem fraco e patético na sua solidão auto-imposta que tem limitações emocionais das quais nem se apercebe.

No final da canção fica o refrão arrepiante na voz de Matthews e é como se ouvíssemos a voz da nossa própria consciência:

"Don't drink the water
There's blood in the water
"

...numa acusação colectiva a quem assassinou para obter terras, mas também a quem fechou os olhos ao crime e compactuou com o silêncio, porque era mais confortável e fácil fazê-lo.
Uma obra-prima absoluta!

PIG é um longo monólogo existencial tão ao gosto de Dave Matthews que defende uma vez mais a urgência de viver o momento presente enquanto coloca uma série de questões existências:

- Como é que os seres humanos vivem como se nada fosse se a vida lhes pode ser tirada num piscar de olhos?

- Não chegam todas as bençãos que já temos nas nossas vidas, temos sempre que nos queixar e rezar para termos mais do que já temos?

Em vez de perdermos tempo a lamentar-nos e a chorar, porque não deixarmos o Amor tocar as nossas vidas?
Nós seres humanos temos as nossas vidas marcadas por encontros, desencontros, acontecimentos felizes mas também lutos, desgraças, rupturas, provações que a esses momentos fugazes de felicidades temos de procurar dar um sentido mais amplo para aprofundar o significado das nossas vidas.

"Let the love in there
There are bad times
but that's ok
Just look for love in it
"

Quem tem medo de amar na Vida nunca a disfrutará plenamente.

The Dreaming Tree
Provavelmente a canção mais ambígua e complexa deste álbum (recheado de canções ambíguas e complexas!)
A "árvore dos sonhos" pode ter diversos significados, provavelmente é uma metáfora para a perda da inocência da infância, ou a sua perda pode significar o preço dos que trocam a juventude, a importância do Amor e uma impressão de Beleza pela sua Ambição.
Mas num sentido mais abrangente parece-me que as personagens da canção perderam a Fé e a dimensão espiritual das suas vidas, têm de enfrentar a Morte - a sua e a das pessoas que vão perdendo ao longo da vida, querem Acreditar porque precisam da Fé para lhes iluminar o caminho mas não conseguem. O refrão parece interpelar directamente o Criador ou Deus:

"Oh have you no pity
This thing I do
I do not deny it
All through this smile
As crooked as danger
I do not deny
I know in my mind
I would leave you now
If I had the strength to
I would leave you up
To your own devices
Will you not talk
Can you take pity
I don't ask much
But won't you speak
Please
"

Como muitas vezes acontece na lírica de Matthews, "a árvore dos sonhos" está aberta a todas as interpretações e como Matthews gosta terá um significado mítico individual para cada um de nós.

The Last Stop, pela sua raridade é uma das canções mais desejadas pelos fãs para ser tocada ao vivo nos concertos.
A banda raramente cede. Ao que consta porque ela representa um esforço brutal para a voz de Dave Matthews. Pessoalmente, gosto que assim seja, a The last Stop não é a Ants Marching (sem qualquer desprimor para a Ants Marching). Mas aqui falam-se de assuntos muito sérios que não se podem banalizar. É uma música que força obrigatoriamente a pensar e a agir, se acreditarmos - como acredita a Dave Matthews Band - que a música pode efectivamente mudar o mundo.
Gostaria de sublinhar uma vez mais, a importância desta canção pela sua complexa temática religiosa e porque é mais uma canção brilhante da Dave Matthews Band uma daquelas que definitivamente vai resistir ao teste do tempo.
Vou-me atrever a tentar escrever alguma coisa sobre ela, e apesar de saber que não lhe vou conseguir fazer justiça, pelo menos espero não envergonhar a banda. Sempre que alguém ler este texto eu esteja onde estiver vou estar a corar.

"Fire
The sun is well asleep
Moon is high above
Fire grows from the east
How is this
Hate so deep
Lead us all so blindly killing killing
Fools we are
If hate's the gate to peace
"

Na abertura da canção a referência ao "fogo que cresce de leste" remete-me para os conflitos do médio-oriente entre judeus e palestianos. Numa leitura mais abrangente também penso que se pode referir a qualquer conflito armado, em qualquer parte do mundo que tenha origem na Religião e principalmente no ódio religioso. O próprio sujeito poético interroga-se nesta estrofe como é que é possível que o ódio esteja tão enraizado - ainda para mais quando as principais religiões do mundo defendem o Amor e a Paz- que leva as pessoas a matarem-se cegamente umas às outras. Como podem as pessoas ser tão loucas que pensem que "o ódio é o portão de acesso à Paz?"

"This is the last stop
For raining tears
War
The only way to Peace
I don't fall for that
Raining tears
"

Convém esclarecer que não é a religião que o sujeito poético critica - as religiões são o que delas se faz - aquilo que desperta a raiva incontida dele é que com a "desculpa" da religião os povos cairam num ciclo vicioso de ódio que gera mais ódio e da violência que gera mais violência. Por isso aqui esta canção é a "last stop". É aqui que terminam as desculpas de usar a guerra como veículo para chegar à paz! O sofrimento, as "chuvas de lágrimas" que as pessoas derramam não têm, nem podem ter qualquer justificação aos olhos de Deus ou dos Homens.

"You're righteous so righteous
You're always so right
Go ahead and dream
Go ahead believe that you are the chosen one
"

A acusação directa aos líderes religiosos lembrando sempre que as maiores atrocidades que os seres humanos cometeram foram sempre executadas por alguém que achava estar certo, que era dono da verdade e que tinha a razão do seu lado.

"Scream
Right is wrong now
Shut up you big lie
This black and white lie
You comb your hair to hide
Your lying eyes
You're righteous, so righteous
You're always so right
But why your lie
"

E nesta estrofe o grito do sujeito poético de indignação e repúdio à violência perpetuada pelas 3 principais religiões monoteístas - cujos líderes se digladiam em guerras sem sentido em que cada uma defende que "O Meu Deus é melhor que o teu Deus!".

"You're righteous
You're righteous
You're righteous
You're always so right
There you are nailing good to a tree
Then say forgive me, forgive me
"

As expressões "Gracious even God/ Bloodied the cross" bem como a "nailing Good to a tree" (que passou a "nailing God to a tree" na versão ao vivo em 1998 em Chicago) parecem remeter para a Bíblia, a Primeira Epístola Universal de S. Pedro, 2:24 referindo-se à morte de Jesus na Cruz:

"He himself bore our sins in his body on the tree, so that we might die to sins and live for righteousness; by his wounds you have been healed.
Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, sendo mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e por cujas feridas vós-outros fostes sarados.


A salvação da humanidade só poder acontecer através da fé e do sangue purificante de Jesus Cristo, bem como o facto de Deus ter deixado crucificar Jesus o seu próprio filho na cruz com tanta violência é um argumento que é utilizado por alguns que querem justificar a violência religiosa como necessária e inevitável no caminho para a PAZ, mas é um argumento que é rejeitado veementemente por Dave Matthews.

Vejamos na Christmas Song a estrofe extraordinária em que Dave Matthews põe Jesus a falar com Deus:

"When Jesus Christ was nailed to his tree
Said "oh, Daddy-o, I can see how it all soon will be
I came to shed a little light on this darkening scene
Instead I fear I've spilled the blood of our children all around
"

"Quando Cristo estava pregado na cruz
disse "Oh pai - vejo como as coisas serão no futuro
eu vim ao mundo para iluminar a escuridão
e em vez disso receio que tenha espalhado o sangue dos nossos filhos
"

É um facto histórico inegável que os maiores inimigos de Deus são sempre os seus defensores mais fanáticos e radicais.

Spoon
A mesma temática da morte de Jesus na cruz é referida em Spoon pelo sujeito poético que num momento do quotidiano em que bebe um café pondera diversas questões relacionadas com a sua própria Fé e a sua relação com Deus. Dave Matthews já referiu diversas vezes que em termos de Fé se considera um agnóstico.
Por isso e como qualquer agnóstico não está convicto. Não sabe, ao contrário dos Homens de Fé qual é a origem de todo o mal. Não é possuidor da Verdade absoluta e tem muitas dúvidas espirituais que o atormentam constantemente.

From hand to hand
Wrist to the elbow
Red blood sand
Could Dad be God


Terá a morte de Jesus sido em vão? Valerá a pena salvar a Humanidade? Acreditar em Deus é um acto de desespero e de necessidade da mente humana inferior ou pelo contrário um sinal de inteligência de uma mente superior? Matthews não tem resposta para nenhuma destas questões – e eu com toda a certeza também não.

There’s voices behind me saying
Sinners sin
Come now and play


Após um minuto de silêncio, escondida no final do álbum, aparece a faixa abaixo como um bálsamo de esperança:

Last Stop Reprise
"Come in from the cold for a while
Everything will be alright
Come in from the noise for a time
Everything will be alright
Everything will be alright
For now, goodbye
Friend, goodbye
"

Lembrando-nos que a grande música não nos aprisiona, liberta-nos, ensina-nos a reflectir, faz-nos ver o invisível e estimula-nos o pensamento e a imaginação. Sem sombra de dúvida, Before These Crowded Streets é um dos melhores álbuns da década de 90.

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Discografia Comentada_Crash (parte 3) - Complemento Lírico

CRASH

Por oposição ao anterior Under the Table and Deaming - que era um albúm intimista e reflexivo, Crash é albúm activo e extrovertido, onde o olhar do sujeito poético se vira para a observação crítica do mundo exterior a si.

A sua temática principal é a de que a vida é para ser vivida com prazer, como uma experiência profunda, pessoal e cheia de significado de pertença e de comunhão com a natureza e a própria humanidade.
A expressão latina "Carpe Diem" - traduzida do latim como Aproveita o Dia, ou Colhe o dia, é a exacta definição desta ideia e filosofia de vida - a de que temos que aproveitar o momento presente sem pensar demasiado nas coisas, não estando apenas preocupados com o que deixámos para trás no passado ou com o que vamos encontrar no futuro - ideia expressa nas canções Two Step, Lie in Our Graves e Tripping Billies. Ser feliz é o que importa e sobretudo não deixar nunca de viver plenamente. As experiências da vida, boas ou más adquirimo-las vivendo.

Outra das temáticas de Crash, a nível mais pessoal parece ser a tentativa individual do sujeito poético em lidar com a fama e com a celebridade, So much to say, e Proudest monkey e em entender a alteração da percepção que os outros têm agora de si - quando Crash é editado a banda já gozava de relativo reconhecimento público. Por outro lado, o drama e as dificuldades das lutas contra as dependências são mencionados em Too much, e Drive In Drive Out as quais parecem debater-se de uma forma ou de outra com esta temática.

Em So much to say o sujeito poético que tem opiniões sobre tudo e pensa obsessivamente em todas as questões de todos os ângulos confessa que às vezes gostava de sair da sua própria mente que o aprisiona:

"Open up my head and let me out little baby"

A desconcertante expressão do refrão:

"Sometimes I find it's easy to be myself
Sometimes i find it's better to be somebody else
"

parece revelar uma das formas que ele consegue encontrar para viver com as expectativas e exigências dos outros em relação à sua pessoa.

Too much é uma crítica feroz à ganância e à voracidade com que o sujeito poético persegue obsessivamente gratificações de prazer imediatas como as proporcionadas pela comida, ou a bebida em excesso. Estas acções reflectem também o comportamento das sociedades ocidentais (nomeadamente a americana) onde o consumo excessivo, o egoísmo e a individualidade são valorizados acima de tudo.

"I eat too much
I drink too much
I want too much
Too much
"

O sujeito poético procura compensar o vazio interior que sente com a perseguição da novidade, da excitação, do poder e absorto nessa procura voraz de satisfação dos vícios desvaloriza a sua alma e a sua vida perde o significado.

Por oposição, em Tripping Billies a comida e a bebida, não são consumidas com voracidade- são veículos de comunhão e de abundância ligadas à celebração e ao convívio e no caso da bebida também a estados alterados da consciência:

"Eat drink and be merry
For tomorrow we die
"

Alguns fãs de DMB acreditam também que os estados alterados de consciência mencionados em Tripping Billies vão além dos proporcionados pela bebida, pois a estrofe:

"Dragons were smoked (*)
Bumblees were stinging us
I was soon to be crazy
"

são referências indirectas ao consumo de drogas, assim a percepção da realidade do sujeito poético é alterada e intensificada por causa dessa "trip".

*(Smoke dragons é uma alusão indirecta ao consumo de marijuana, referência originada pela canção infantil "Puff the Magic Dragon" de Peter, Paul e Mary. Ainda que os autores da canção Leonard Lipton e Peter Yarrow tenham negado sempre estas associações- a referência tornou-se um mito urbano - e foi absorvido pela cultura popular.)


Cry Freedom foi escrita por Dave Matthews em homenagem ao activista anti-apartheid Steve Biko, assassinado pelo governo sul-africano em circunstâncias brutais. A sua morte provocou uma onde de choque e de indignação no mundo inteiro e Biko transformou-se num mártir e num símbolo da luta contra a opressão do regime apartheid. No contexto lírico, Cry Freedom é um testemunho de que o mundo pode mudar através da acção concreta de um individuo face aos outros:

"Hope laid upon hope
That this crowd will not subside
Let this flag burn to dust
And a new a fair design be raised
While we wait head in hands
Hands in prayer
And fall into a dreamless sleep again
And we wave our hands
"

Cry Freedom é uma das primeiras canções de Matthews a expressar a consciência sócio-política da banda - grande defensora de causas sociais e humanas, e a sua indignação perante as desigualdades, a Injustiça e a Opressão.

Two Step refere-se a um passo de dança utilizado numa série de danças diferentes.
A dança - considerada como a primeira e mais antiga das actividades culturais - é uma paixão conhecida de Dave Matthews - que referiu em diversas entrevistas que herdou o gene do gosto pela dança da avó a qual nos anos 20 adorava dançar "Charleston" em bailes de salão. Infelizmente, refere Matthews herdou só o gene do gosto e não do talento - pois a sua dança é descrita pelo próprio como "espasmos estranhos dos músculos das pernas".
No contexto da canção Two Step parece referir-se também metaforicamente ao casal da canção que tenta dançar ao mesmo ritmo isto é quer dar os passos certos na direcção um do outro.
O sujeito poético descreve os seus sentimentos pela mulher nesta estrofe belíssima:

"Hey, my love, you came to me like
Wine comes to this mouth
Grown tired of water all the time
You quench my heart and you
Quench my mind
"

Crash into me descreve um sonho/fantasia eróticos do sujeito poético com uma mulher que é observada e objectificada por ele sem ter qualquer consciência disso à janela e de uma distância segura. Apesar da temática e do voyeurismo subjacente a este comportamento tipicamente masculino, por mérito da escrita soberba de Matthews, Crash into me é uma canção que toca profundamente as mulheres.
Em Crash into me o Amor é urgente e não reprimido, a paixão sem controlo está para além da razão e do senso comum e o sujeito poético está em contacto com a sua sensualidade e as suas reaccões emocionais que são maravilhosamente expressas nesta canção.

"If I've gone overboard
Then I'm begging you
To forgive me
In my haste
When I'm holding you so girl
Close to me
Oh and you come crash
Into me, baby
And I come into you
"

Sendo um daqueles raros homens que compreendem intuitivamente as Mulheres, Matthews também entende que a Paixão e o Desejo têm de ser compreendidos na alma e que a Alma por sua vez também precisa de paixão e do desejo para sobreviver.
Não é qualquer homem que consegue transformar o Sexo em Poesia. Mas Dave Matthews, como nós todos sabemos, não é um Homem qualquer.

Say Goodbye
Todas as vezes que discuto a Say Goodbye com fãs masculinos de DMB assisto sempre a trocas de olhares cúmplices de entendimento e sorrisos de superioridade como se esta canção fosse uma coutada dos homens e o seu significado mais profundo estivesse vedado ao entendimento feminino. Porque - disseram-me esses entendidos com condescendência - a canção fala de sexo e mais do que isso de sexo sem compromissos.
Incomodam-me esses sorrisos de condescendência masculina .
A percepção que aqui esta mulher - no seu entendimento inferior - tem é a de que só numa primeira leitura é que se pode dizer que a Say Goodbye só é sobre sexo. Baseio esta opinião não só na letra mas principalmente no modo como a canção é cantada. Na primeira estrofe num tom aparentemente casual, descontraido e até blasé Matthews canta:

"So here we are tonight, you and me together
The storm outside, the fire is bright
And in your eyes I see whats on my mind
You've got me wild, turned around inside
"

No entanto, à medida que a canção decorre e a cada estrofe que passa, o sujeito poético vai ficando cada vez mais perturbado, num crescendo emocional até à estrofe final que é quase gritada - porque a máscara cai, revelando assim o turbilhão de sentimentos (provavelmente contraditórios entre si) mas que vão muito mais além do simples desejo sexual que ele sente pela mulher da canção:

"And tommorrow
Back to being friends
Lovers...love...lovers
Just for tonight, one night...love you
And tommorrow say goodbye
"

Não acredito que ele queira só uma noite com aquela mulher. Acredito que ele tem de se contentar só com uma noite porque sabe que é a única coisa que ela lhe concederá. A ele não é a conquista que o motiva. É a experiência libertadora, intensa, enriquecedora de partilha que o sexo pode ser. O desejo sexual explicito em toda a letra é desencadeado como uma força da natureza porque a sua própria natureza sensual inata alia-se a uma grande intensidade emocional.
E enquanto eu própria sorrio por ter chegado a esta conclusão (infundada e subjectiva que ela seja) pergunto-me o que será feito da mulher da canção...
Afinal de contas, após o encontro, o sujeito poético fica sozinho - sem motivos para sorrir - a pensar e a escrever sobre aquele encontro enquanto a mulher, regressou aparentemente imperturbável ao seu mundo e à sua vida.
Curiosamente, pergunto-me se não será ela a ter o maior sorriso de todos.

Lie in our graves
A extraordinária LIOG é um hino de celebração à vida, um bálsamo para a alma e para os sentidos que descreve na perfeição um daqueles momentos raros da existência de cada um de nós onde que tudo nos parece perfeito e nos quais nos sentimos em perfeita harmonia e sintonia com o mundo e o universo, plenos de felicidade e alegria. Tudo flui como deve fluir.

"When I step into the light my arms open wide
When I step into the light my eyes searching widely
"

O Amor e a Paz preenchem o coração e tudo é harmonia e plenitude e qualquer sofrimento que haja esvai-se!

"The water comes up to my toes,
to my ankles,
to my head,
to my soul
I'm blown way
"

O sujeito poético não é o único a sentir-se arrebatado. Ninguém pode ficar indiferente ao estado de felicidade e paz que esta canção provoca instantaneamente em quem a ouve, independentemente da idade, do sexo, e de se gostar ou não de Dave Matthews Band. A Lie in Our Graves é um beijo no coração, um remédio que devia ser vendido nas farmácias ao lado do Prozac também como cura para a depressão, a infelicidade, o mal estar, e a dor de alma.

"I can't believe that we would lie in our graves
dreaming of things that we might have done
"

A consciência de que a morte é inevitável dá-nos a liberdade para ousarmos viver a Vida sem arrependimentos.
Enquanto escrevo estas linhas oiço mais uma vez a canção, e Dave Matthews sorrir enquanto canta ao minuto 2 e 12 segundos e dou por mim a pensar que - pelo menos durante o tempo em que dura a faixa - a vida não podia ser mais perfeita do que aquilo que é.

Proudest monkey
O sujeito poético utiliza a imagem metafórica dos macacos para fazer um divertido exercício de autoanálise. A nível simbólico o animal macaco representa o que está para lá das fronteiras das atitudes sociais e civilizadas do ego consciente - e é muitas vezes objecto da contemplação e do interesse obsessivo da mente curiosa de Dave Matthews.

"But then came the day
I climbed out of these safe limbs
Ventured away
Walking tall, head high up and singing
I went to the city
Car horns, corners and the gritty
Now I am the proudest monkey you've ever seen
"

Deixar a floresta e ir para a cidade, representa o triunfo da Vontade e do Intelecto sobre o Instinto e a Natureza.

"Then comes the day
Staring at myself I turn to question me
I wonder do I want the simple, simple life that I once lived in well
Oh things were quiet then
In a way they were the better days
"

É na cidade que o macaco vai encontrar o seu espírito e o seu orgulho, mas também é na cidade que o macaco se apercebe que por muito orgulho que tenha naquilo em que se tornou, também perdeu a paz de espírito e a tranquilidade de uma vida simples- e provavelmente uma parte de si e da sua natureza que teve que deixar pelo caminho. É esta a grande lição de vida que o macaco/homem aprende: O verdadeiro preço de uma coisa é aquilo que temos de abdicar para a ter.


Para o fim deixei propositadamente a #41.
Porque esta canção é perfeita, optei por não a estraçalhar com pseudo análises amadoras, ou devaneios pessoais. Respeito-a demais para isso.
A #41 é intocável e na sua grandeza lírica e musical, inviolável, pura e incorrupta merecendo por isso ser deixada em paz, livre e aberta às interpretações individuais de cada um. Tenho toda a confiança que ela chegará a quem tem de chegar e tocará seja quem for que esteja destinada a tocar.
Só não resisto a citar aquela que para mim é a frase mais bonita e melancólica da canção:

"Remember when I used to play for all the loneliness that nobody notices now"

De resto, remeto-me ao silêncio porque no caso da #41 as palavras não podem exprimir adequadamente a sua essência. Fica uma profunda reverência e respeito pela sua perfeição e encanto.

Mais uma vez, como letrista Matthews supera-se em Crash, é um idealista introspectivo que pensa na sua experiência de vida e no mundo que o rodeia, nos seus sentimentos e nos das outras pessoas com grande profundidade e sentido crítico.

Dado o seu talento nato para traduzir em palavras as vivências e as experiências de vida comuns a todos os seres humanos como o Amor, o Sexo, a Alegria, a Tristeza, o Desencanto e a Vida, Matthews consegue uma identificação imediata dos ouvintes com o albúm levando-nos à consciência de que somos parte de algo muitíssimo maior do que nós.

Talvez seja por isso que Crash é provavelmente o mais conhecido, o mais divulgado e o mais amado de todos os albúns da Dave Matthews Band, consegue curar a nossa sensação de isolamento e alimenta o nosso Espírito e a nossa Alma.

by adhara in www.somuchtosay.pt.vu